Há muitos, muitos anos, no pátio dos prédios onde eu morava, havia um rapaz mais forte do que os outros. À conta disso, pelo medo que o físico impunha, juntava uma prole de outros meninos em seu redor. Ninguém queria estar contra. Qualquer jogo que jogássemos deixava de ter regras universais: só contavam as dele, as que davam jeito, tantas vezes inventadas no preciso momento em que tinha perdido e passava a ganhar.
Uns tempos depois, já na escola, conheci mais um personagem. Este não era o mais forte, mas arranjou outra forma de sobressair: mentia compulsivamente. Nas suas palavras, tinha todos os brinquedos que os outros não tinham, via super-heróis que mais nenhum vira. Os relatos eram de tal forma reais que era difícil não crer. Todos acreditávamos no que estava a ser dito. Até o próprio mentiroso.
A vida foi andando e, com ela, veio o manipulador. Não era o mais forte e não vivia no mundo de ilusões. Mas via, apenas, uma maneira de pensar, agir e fazer: a sua. E foi aperfeiçoando a capacidade de convencer os outros a ignorarem as respectivas personalidades, a escamotearem identidades, para assumirem essa e só essa. Respondiam a voz única, a voz do manipulador multiplicada pelas dos manipulados. Verdade absoluta, convicção total, pensamento zero.
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