1 – O mês de agosto é de “férias gerais” como impõe, antes de mais, a agenda escolar, que determina a de várias gerações de cada família e a do mundo do trabalho. Já assim acontecia no final dos anos sessenta, por exemplo, em Paris, (onde eu fazia estudos de pós-graduação), quando em Espinho, a “saison” estival ainda se prolongava ao longo de três meses, de julho a fins de setembro, com vagas de turistas que se revezavam a arrendar as casas de praia, e a encher as esplanadas, os cafés e restaurantes, a piscina, os cinemas (o Cine teatro São Pedro e o Casino, com programação diária, num total de sessenta filmes por mês), os salões de dança (da Piscina, do Casino…), e as ruas de um comércio tão ativo e diversificado quanto o de hoje – ou mais. É certo que agosto já ganhara, para os veraneantes, o estatuto de mês mais procurado e mais caro, mas não o único.
Eu vinha com a família no início da época, às vezes em junho, e ficava até ao começo das aulas, em outubro, na pequena casa de verão dos meus bisavós, na rua 7. Que tempo maravilhoso!… Manhãs na praia azul, ou na piscina, tardes divididas entre sessões de cinema, corridas de bicicleta, jogos de damas e de dominó no café Palácio, no Costa Verde. A Avenida das imponentes palmeiras, luzes e música ambiente, tinha ainda mais encanto à noite, com as esplanadas frequentadas por gente vestida a preceito, e o alegre vaivém de velhos e novos, entre a estação do comboio e a rua 23. O programa alternativo era um salão de dança, de longe a longe, e, quase sempre, o cinema. Quando passavam dois filmes imperdíveis, íamos à tarde a um, à noite ao outro. Havia dois intervalos, aproveitados, no São Pedro, para tomar café e deambular entre os enormes quadros de vedetas de Hollywood, pendurados nas paredes, e no Casino, para vir às varandas olhar a multidão em lento e prazeroso movimento na Avenida. Duas vezes por semana, o Casino oferecia, ao intervalo, variedades em palco – grandes artistas como Simone ou Tony de Matos, no auge da fama – com um acréscimo de preço insignificante. Na verdade, era através da sua sala de cinema que o Casino participava na nossa vida e faz hoje parte das minhas saudosas memórias da alma da cidade.
Outra época, outro mundo… Tudo mudou, e, contudo, eu não mudei a minha relação com Espinho durante o ano inteiro, agosto inclusive. É aqui que faço praia, ao contrário de muitos espinhenses, que rumam ao Algarve, em busca de sol tórrido e mar (incertamente…) morno.
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