1 – A vitória do FCP no campeonato de 2026 foi indiscutível, com um começo fantástico, em força, à Farioli, e, depois, com a capacidade de se manter na frente e de superar o abrandamento final, também à Farioli. Em suma, foi sempre a melhor equipa, deu ao jovem treinador, formado em Filosofia em Florença, o seu primeiro grande troféu e, do mesmo passo, a todos os portistas, mais uma taça para o Museu e a certeza de que, no novo ciclo de Villas Boas, retomavam o seu percurso como estrela maior do futebol português, seu paradigma de qualidade, sua bandeira a nível internacional. A bandeira azul e branca, cores originais de Portugal, que foram adotadas, desde a primeira hora, pelo clube portuense, nascido ainda sob o regime monárquico.
No período de transição de liderança, isso não fora, de início, coisa que pudéssemos ter por segura, na era pós-Pinto da Costa, o mítico presidente mais titulado do mundo, que fizera de um clube aguerrido, mas “regional”, uma superpotência a nível interno e em ascensão na alta roda do futebol mundial. Para os portistas, a não participação do clube na UEFA Champions League só pode, atualmente, ser vista como uma anormalidade com foros de escândalo. Ora, a última participação do FCP na Liga dos Campeões datava de 2023/24, quando foi eliminado pelo Arsenal, nos oitavos de final, por grandes penalidades, e o título de campeão fugia-lhe há quatro longos anos. À perda dos milhões dessa competição europeia juntava-se o anúncio, felizmente exagerado, do estado de falência do clube, em 2024. Para mim, de qualquer modo, o desnorte no campo de jogo era mais inquietante do que no campo das finanças, onde, num ápice, havendo pilares de sustentação, “se dá a volta por cima”. De facto, lembrava-me de diversos períodos altos e baixos nas contas do FCP e, sobretudo, do pitoresco episódio da penhora do seu património, incluindo a retrete do árbitro do Estádio das Antas, pelo tristemente célebre ministro Catroga, que não logrou atrapalhar esplêndidas vitórias desportivas, nem vultosos investimentos em jogadores. Tal como eu esperava, a história repetiu-se e, apenas um escasso ano após a anunciada “falência”, eis que o FCP se reforça com o seu mais caro plantel de sempre, o atual. Milagre? Não, nem milagre nem perdão bancário das dívidas, que é privilégio de um certo clube de Lisboa. Foi, simplesmente, muito boa gestão de sólida riqueza institucional herdada, incluindo o potencial de vendas de passes de jogadores. E eis o Porto de regresso ao seu lugar cimeiro, retomando o fio da sua história, “contra tudo, contra todos”!
2 – Assim foi e assim vai ser, provavelmente por muito tempo ainda. Somos o país mais centralizado da Europa, razão primordial do nosso atraso, gerador de pobreza relativa e de emigração de jovens talentos, e os maiores clubes da capital gozam das vantagens da sua proximidade do Terreiro do Paço e do favorecimento geral dos média, nomeadamente das televisões privadas e, por vezes, também da pública. Quando um dos emblemas da capital é o vencedor, todos os canais se centram nos festejos, durante dias e dias, comentando as imagens, os feitos, os heróis, em infindável replay. Quem não se lembra, por exemplo, daquele desfile sportinguista, pela madrugada dentro, atravessando quilómetros de ruas de uma Lisboa, até então enclausurada pela pandemia de Covid, em completo e tolerado desrespeito por rigorosos ditames? Tudo religiosamente filmado e transmitido ao minuto, até os incidentes desagradáveis finais, que, por lá, fazem parte integrante dos rituais guerreiros. Com exceção das desordens, que, por cá, não fazem parte dos programas de festa, esperava que, ao menos naquela noite especial, o FCP estivesse em foco nos vários canais televisivos, que tão abundantemente se ocupam sempre do futebol.
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