1 – Estamos a três dias da primeira volta das eleições, com a certeza de que haverá uma segunda volta, tal como em 1986. Para alguns é o momento de escolher, sem hesitação, o seu favorito. Para outros, a preocupação será a de eliminar candidatos indesejáveis ou a de deixar em campo, como finalista, um nome da sua área política – o chamado voto útil. A atual situação assume contornos singulares, por ser, praticamente, impossível avaliar a posição relativa dos muitos protagonistas com expectativas de sucesso. As sondagens ganham, por isso, uma importância desmesurada. E o mesmo se pode afirmar dos comentadores (melhores, piores, mais pragmáticos, mais levianos) que intervêm, num turbilhão incessante, em canais de televisão, na rádio, na imprensa, nas redes sociais. Ai dos que não tenham crenças firmes! Ficam à mercê da dificuldade de cálculo e daí o risco de votar errado, querendo votar útil.
É risco que não corro, tendo há muito tomado uma decisão firme e não me deixando impressionar pelas oscilações das tracking polls, nem pelo receio de não apostar no vencedor. Ao longo deste meio século de democracia foi sempre assim que alinhei com os meus candidatos, na vitória como na derrota. Em alguns casos, sabendo que era incerto o resultado (por exemplo, o do General Soares Carneiro, em 80, de Freitas do Amaral, em 86, de Cavaco Silva, em 96) ou extremamente remotas as hipóteses de alcançar a meta, caso de Mário Soares, em 2006.
Num dos países mais idealistas do mundo, previ que o regresso do Dr. Soares ao Palácio de Belém, aos 82 anos, (e, ainda por cima, sem o suporte oficial do partido que fundou) não aconteceria, mas considerei que tinha todas as condições para prestigiar o cargo e a República e que merecia o nosso reconhecimento pelo seu passado. Foi uma opção ética e afetiva. Aceitei, com alegria, o convite para pertencer à sua “Comissão de honra” e participar, com ele, em comícios e arruadas. Momentos inesquecíveis!
Nunca tinha sufragado o seu nome num boletim de voto, era a minha última oportunidade. Em 1986, aquando da sua primeira vitória, estava eu, de alma e coração, com o seu opositor, por quem tinha admiração e amizade. Na verdade, o ano mais feliz da minha vida foi o de 1980, no Governo de Sá Carneiro, a trabalhar diretamente com o Vice-Primeiro-Ministro e Ministro dos Negócios Estrangeiros, Freitas do Amaral (como Secretária de Estado das Comunidades Portuguesas). Antes mesmo do PSD o adotar como candidato, por iniciativa de Cavaco Silva (que encontrou não poucas resistências internas…), já eu o fizera. Sempre achei que a presidência da República é cargo suprapartidário, para o qual devemos eleger em consciência, em liberdade, sem obediência a agremiações.
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