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Cândido Mota: “Espinho foi, durante muitos anos, a minha grande terra”

por Defesa de Espinho
04-05-2026
em Destaque
Cândido Mota: “Espinho foi, durante muitos anos, a minha grande terra”
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Cândido Mota nasceu em Espinho e foi uma das vozes da rádio e televisão mais conhecidas dos portugueses, com participações em programas que marcaram gerações. Aos 80 anos e a viver na Aldeia do Meco, o locutor, que também fez teatro e se popularizou no pequeno ecrã ao lado do amigo, Herman José, recorda a terra natal com carinho e saudade. Numa entrevista de memórias, o filho da atriz e fadista, Maria Albertina, recupera a infância passada no ‘Picadeiro’, a azáfama do Casino e os dois pés esquerdos, que não o impediam de viver na rua. 

Que relação tinham os seus pais com a então vila de Espinho e como surgiram por lá, pois ao que julgo residiam na Foz e tinham casa na Granja?
Nasci na clínica do dr. Manuel Gomes de Almeida, junto à linha do comboio e próximo da atual estação ferroviária de Espinho, na rua 8. A minha avó materna viveu em Espinho, numa casa próxima da Igreja Matriz e dos antigos Bombeiros Voluntários de Espinho, na rua 16. Nessa altura, a minha mãe, que estava grávida, estava a passar uns dias em casa da minha avó. De repente, ‘bati à porta’ porque queria sair. O meu pai levou a minha mãe para a clínica do dr. Gomes de Almeida, que era amigo dos meus pais. Foi lá que nasci.
Acabei por passar muito tempo em Espinho porque os meus pais andavam muito entre Lisboa e Porto e fiquei em casa da minha avó, com a minha irmã mais velha. Vivi lá durante muito tempo. Fiz em Espinho a instrução primária, desde a segunda classe, porque, na primeira, estive no Porto, no Colégio João de Deus, na rua de Santa Catarina. Frequentei a Escola Primária N.º 1, na rua 19, junto à Câmara Municipal de Espinho e fiz os dois primeiros anos do liceu no Colégio S. Luís, com o querido e saudoso padre Costa, que marcou a vida de gerações de alunos. Aliás, havia professores extraordinários e o colégio era muito agradável.

Para onde foi depois?
Fui fazer o terceiro ano para Lisboa, porque o meu pai fixava-se mais por lá. Fui para o Liceu Passos Manuel e foi por lá que prossegui os meus estudos. No entanto, sempre que podia ia a Espinho. Arranjava sempre maneira de passar por lá, porque Espinho sempre foi, durante muitos anos, a minha grande terra, a terra que gostava muito, à semelhança do Porto porque tínhamos lá uma casa.

Recorda-se de alguma estória de infância?
Nunca fui praticante de futebol porque tinha ‘dois pés esquerdos’. Não era fácil ser miúdo e não gostar de futebol e, por isso, tinha de ser melhor em outras coisas que tínhamos em comum. Era ótimo a fazer e a atirar com fisgas. Era respeitado pelos outros miúdos porque era um atirador extraordinário. Era imaginativo para brincadeiras. Era tão mau no futebol que um dia, o meu pai, resolveu dar-me uma bola de futebol profissional, do melhor que havia na altura. Eu era o dono da melhor bola. Punham-me à baliza, mas nem aí me ajeitava. Tinha um grande amigo, que morreu aos 18 anos, que era um génio a jogar futebol. Ele fazia com que os outros me aceitassem, porque dizia que, se me chateassem, eu levava a bola e eles tinham de jogar com uma bola de trapos.

Espinho é uma terra apaixonante…
Sempre tive uma grande ternura por Espinho porque foi lá que aprendi a nadar e fazer as coisas que na juventude todos fazíamos. Porém, a certa altura, desgostei-me de Espinho, porque hoje em dia está igual a tudo. Está muito descaracterizada. Tanto querem fazer que acabam por tirar a alma dos sítios e das pessoas. Por isso, ir a Espinho ou a outro lado qualquer é praticamente a mesma coisa. Mantenho uma ternura pela terra porque foi onde nasci e fui criado desde miúdo, mas já não é o meu Espinho!…

A morar no Sul, Cândido Mota recordou sempre com saudade a sua terra Natal. (fotografia: Defesa de Espinho)

Que recordações tem da terra que era uma vila?
O Grande Casino era um local emblemático e o centro de tudo na, então denominada, vila de Espinho. Havia aquela maravilhosa avenida, à qual chamávamos o Picadeiro, e era o centro onde toda a gente se juntava. Os cafés eram todos ali.
A gente de Espinho ia muito ao Casino, porque aquele espaço tinha vida própria, vida criativa, cultural e artística. Havia lá grandes espetáculos. Todos os grandes artistas da época iam ao Casino de Espinho atuar. Nós, espinhenses, vivíamos tudo isso.
Recordo-me com grande saudade da Piscina Solário Atlântico, que era extraordinária. Era enorme, linda e era um espaço onde também fazíamos vida.
Espinho tinha coisas muito giras, porque nós, enquanto miúdos, andávamos por todo o lado. Tanto íamos brincar para junto do Casino como íamos para o Bairro Piscatório, brincar com os filhos dos pescadores. Era uma vida engraçada e muito bem vivida. Passávamos por todas aquelas coisas clássicas como nos enganarmos uns aos outros e levávamos alguns a fazerem a caça aos gambuzinos para a Barrinha de Esmoriz.

Nunca chegou a saber o que era um gambuzino?!
Nunca cheguei a saber o que era um gambuzino. No entanto, há uma história extraordinária passada com um grande amigo meu, o Herman José, que lhe posso contar.
Estávamos no Algarve a passar umas férias na casa dele, na Marina de Vilamoura. O Herman foi convidado para uma festa de aniversário, onde estavam os políticos e alguns governantes da altura.
Resolveu falar-se de memórias de infância e alguém falou na caça aos gambuzinos. Perguntaram ao Herman José se já tinha acontecido com ele ir à caça aos gambuzinos. Ele respondeu que era um menino de Lisboa e que, por isso, nunca tinha passado por essas experiências. Disse que não fazia a ideia do que era um gambuzino! Ele respondeu que, cada vez que ouvia falar num gambuzino, só se lembrava do Luís Marques Mendes com pelo. Foi uma gargalhada tremenda. Por isso, ainda hoje, quando vejo o Marques Mendes na televisão a fazer os comentários políticos, imagino-o com pelo e, para mim, é um gambuzino [risos].

O Casino de Espinho era mesmo um local emblemático para si.
Havia lá as matinés dançantes, os bailes do casino e tocava lá a Grande Orquestra do Casino, a Grande Orquestra Almeida Cruz, que tinha mais de 50 elementos. Grandes artistas da época iam lá cantar. Era uma vida muito engraçada e divertida.

O espetáculo e a música sempre o despertaram!
Sempre me despertaram, até porque a minha mãe, Maria Albertina, era atriz, fez teatro, era fadista e esteve um pouco afastada durante alguns tempos, porque, quando nasci, dedicou-se mais à vida em casa. Após o falecimento do meu pai, ela teve de ficar com a família às costas, comigo e com a minha irmã. Acabou por regressar à vida artística, mais tarde, até ao último dia da sua vida. Ela tinha um fascínio pela vida artística e, por isso, desde miúdo que a minha formação foi feita à conta das estórias contadas pela minha mãe. O gosto pelo espetáculo enraizou-se em mim.

Alguma vez a Maria Albertina atuou em Espinho?
Julgo que sim, até antes de eu nascer, em tournées.

Também chegou ao teatro!
Mais tarde, passei pelo teatro e fui ator durante vários anos, o que foi uma experiência extraordinária. Fiz tournées pelo país fora. A mais duradoura foi com o Raúl Solnado, que foi um êxito extraordinário, o Há Petróleo no Beato. Durou quase dois anos e andámos por todo o país. O teatro é uma coisa maravilhosa. No teatro, cheguei a passar por Espinho, pelo Cine-Teatro S. Pedro.

Quando representou em Espinho sentiu alguma emoção por estar na sua terra natal?
Claro que sim e Espinho sempre criou em mim emoções muito fortes. Ainda mantive contactos com espinhenses que, entretanto, foram falecendo.

Fez muitas amizades?
O tempo foi passando e estou numa idade em que são mais os amigos que já morreram do que os que estão vivos. Só estou à espera de, um dia destes, ir ter com eles.

Há estórias que lhe tenham contado desse tempo?
Estórias há muitas, mas, naquela altura, tudo era tão natural que acabam por não ficar na memória, porque não lhes demos importância no devido tempo. Tive os primeiros anos de vida e uma infância que foram preenchidos com todas aquelas coisas das crianças da altura. Tínhamos uma vida toda cá fora, não era dentro de casa. Saíamos e sabíamos quando tínhamos de chegar a casa, quando nos dava a fome à hora de almoço e do jantar. Não era preciso insistirem connosco para que estudássemos, porque sabíamos os trabalhos que tínhamos de fazer em casa. Depois, íamos brincar e em Espinho havia muito para brincar.

Já o disse publicamente que teve uma infância dourada e mágica. Porquê?
Tive uma família muito boa. Quero acreditar que há pessoas que tiveram um pai e uma mãe tão bons como eu tive. Melhores não acredito. O meu pai e a minha mãe continuam a ser, para mim, o paradigma do que é ser pai e mãe. A minha irmã, que já faleceu, foi, para mim, irmã e mãe ao mesmo tempo. A minha avó materna era uma pessoa extraordinária e os meus avós paternos não os conheci, porque morreram muito novos. Tive uma família muito junta, muito unida e muito acompanhante. Passei por várias experiências. Nasci quando o meu pai era rico e, quando morreu, estava completamente arruinado. Tinha a particularidade de ser honesto e pagou tudo a toda a gente. Por isso, ficou sem dinheiro. A minha mãe teve de tomar conta da família. Passámos de uma vida de abastança para uma vida mais complicada e difícil.
Estivemos sempre unidos e com uma capacidade de enfrentar as situações, que permitiu ultrapassar todos os problemas. Ainda hoje, mantenho a mesma atitude, ou seja, as dificuldades são para ser encaradas, ultrapassadas e resolvidas. É assim que vamos vivendo a nossa vida. Por isso, tenho uma vida agradável.

Afirmou que o seu pai foi “o farol” da sua vida e que foi “um exemplo do que um homem deve ser”. Porquê?
Foi sempre o meu farol e foi um exemplo de homem. Foi a luz que iluminou a minha vida e, por isso, sigo-lhe o exemplo até hoje.

A sua mãe, a conhecida fadista Maria Albertina, levou-o até ao mundo do espetáculo e da música?
Não. A minha mãe levou-me ao mundo da rádio. Ela foi entrevistada pelo Jaime da Silva Pinto, no Rádio Clube Português, figura que se tornou mais tarde, para mim, no meu pai espiritual dentro da rádio e na profissão. Acompanhei a minha mãe, porque gostava de o fazer. E, após essa entrevista, ela teve uma saída que ia fazendo com que eu morresse de vergonha e de embaraço. Ela virou-se para o Silva Pinto e pediu-lhe para ele fazer uma gravaçãozita com o miúdo, porque achava que a minha voz seria boa para a rádio. Eu deveria ter uns 17 anos de idade. O Jaime da Silva Pinto disse-lhe, de imediato, que sim e foi então que me puseram à frente de um microfone. Colocaram-me um jornal à frente e li um artigo de fundo do Diário de Notícias desse dia.
O Jaime disse à minha mãe que ela tinha razão, porque “o rapaz” até tinha jeito. Levou a gravação e ficou de dizer qualquer coisa à minha mãe.
Passado alguns tempos, disse à minha mãe que tinham ouvido a gravação e pediu para eu me apresentar no Rádio Clube Português, num determinado dia, que começaria a estagiar. Foi assim que fui para a rádio.

E como foi no teatro?
Foi diferente. Já era profissional de rádio e conhecia gente do teatro. Era filho da Maria Albertina e, pela profissão, já era conhecido pelo Cândido Mota. Conhecia muita gente do teatro. Um dia, se a memória não me falha, no Teatro Monumental, entrou o Vasco Morgado e cumprimentou-me. Quando ia a afastar-se, voltou para trás e disse-me que estava a preparar uma peça, explicou-me e disse-me qual era o elenco e perguntou-me se não queria experimentar fazer teatro. Disse-lhe que gostaria de experimentar, até porque gostava imenso de teatro, mas também lhe disse que não tinha qualquer experiência e que nunca tinha pisado um palco a sério.
O Vasco Morgado disse-me que eu não era parvo e que conseguiria lá chegar. Disse que eu tinha características para o papel que ele pretendia.
Por acaso, estreei-me com uma peça espantosa e com um elenco extraordinário, nomeadamente com o Ruy de Carvalho, Armando Cortez, Costa Ferreira, entre outros. Fiz a primeira peça e a segunda e fui por aí fora. Foi uma experiência maravilhosa.
Tive a sorte de ter feito, ao longo da minha vida, sempre tudo o que gostei, mas o teatro foi uma experiência única. Quem pisa as tábuas e respira o pó do palco pela primeira vez, fica apanhado até ao resto da vida.

Com apenas 17 anos de idade, os microfones da rádio não o assustaram?
Não, porque entrei para o Rádio Clube Português que era o melhor que havia naquela altura. Era uma estação de rádio extraordinária e trabalhei com gente maravilhosa, profissionais de primeira apanha e de primeira escolha. Os que estavam tinham gosto e orgulho em ensinar os mais novos. Para nós, eles eram os nossos mestres e éramos os bichinhos de estimação deles. Por isso, tive a felicidade de aprender com gente do melhor que havia e que tinha o gosto em transmitir os seus conhecimentos. Acabei por fazer o mesmo para as gerações seguintes e houve grandes profissionais que aprenderam comigo muitas coisas da rádio. O Rádio Clube Português era uma escola.

Locutor escolheu a Aldeia do Meco, em Sesimbra, para viver. (fotografia: Defesa de Espinho)

Viu na rádio alguém que fosse para si, nessa altura, uma referência?
O primeiro nome que me vem à cabeça é o do diretor dos serviços de informação do Rádio Clube Português, o Luís Filipe Costa e que ainda hoje é a referência absoluta de tudo o que é informação em rádio e de gerações de grandes profissionais. Mas houve muitos mais, que me cansaria de os enumerar.

Teve um percurso na locução, realização e produção de programas e, também, no jornalismo…
Fiz jornalismo durante anos e o meu primeiro trabalho na rádio foi no departamento de informação do Rádio Clube Português. Acumulei informação com a produção e realização de programas.

A rádio está muito diferente nos tempos atuais?
Os processos são diferentes, uns melhores e outros piores. Mas a rádio, embora não seja a mesma, tem muitas parecenças e as bases são as mesmas. Acho que há menos criatividade, porque entrou-se muito pela globalização das coisas. A rádio, como toda a atividade criativa, deve ser feita por criadores, por autores. Deve haver programas de autor para sabermos o que estamos a ouvir e o porquê. Para podermos apreciar o gosto de quem o está a fazer. Estandardizar as coisas e uniformiza-las é muito mau.

O Rádio Clube Português foi o início, mas foi na RDP – Rádio Comercial que alcançou mais sucesso, com programas como Em Órbita, O Passageiro da Noite e Dançatlântico. Como eram estes programas e de que forma lhes deu o seu cunho pessoal?
Mas o Rádio Clube Português é inesquecível para todos os que passaram por lá e tiveram a sorte de lá trabalhar. Foi o grande exemplo de como a rádio deve ser. Foi uma referência, de tal maneira que se criou uma família entre as pessoas que passaram por lá. A Rádio Comercial e a RDP são seguidores. O Em Órbita foi um sucesso durante ano e, quando chegou o 25 de abril de 1974, o programa já tinha nove anos de existência.
O Passageiro da Noite foi ideia do Jorge Dias, que tinha ido aos Estados Unidos e ouviu lá muitos programas de linha aberta e em contacto com os ouvintes. Isso não existia em Portugal. Perguntou-me se não estaria interessado em fazer algo semelhante aqui e comecei a fazer o programa que acabou por ser um êxito arrasador.

Sempre se sentiu à-vontade com os programas em direto e com os contactos telefónicos dos seus ouvintes?
Claro que foi um risco ter a linha aberta aos ouvintes. Mas há alguma coisa que valha a pena se não houver uma dose de risco?

Teve alguma surpresa desagradável, em direto?
Nunca tive um caso de algum ouvinte que tivesse alguma atitude menos correta. Não havia quaisquer processos de filtragem e as pessoas tiveram a noção de que aquele programa era um serviço que lhes estava a ser proporcionado e que, por isso, deveriam aproveitá-lo com o máximo de seriedade. Foi uma experiência profissionalmente notável.

O teatro deu-lhe esse à-vontade com os ouvintes?
Quando estamos em cima de um palco, há uma comunicação imediata e total entre o palco e o público e vice-versa. Temos a noção de como o público está a reagir ao nosso trabalho. Existe um diálogo e não um monólogo.

Acha que foi um revolucionário nos programas de rádio em Portugal?
A época em que trabalhei mais na rádio foi muito criativa e muito inovadora. Por isso, todos tivemos a nossa quota-parte na criatividade e na capacidade de experimentar coisas novas. Isso era incentivado pelo próprio público. Portanto, tivemos uma grande dose de colaboração nessa criatividade dessa época.

“Fiz rádio e televisão, durante muito tempo, só com a voz. Ao andar pelo país e estando num sítio onde não havia estado antes, as pessoas olhavam e não conheciam a minha imagem, mas reconheciam a minha voz.”

Cândido Mota

Como conheceu o Herman José?
Na altura em que o conheci, ele ainda não teria começado no teatro. Suponho que ainda andava a estudar. Conhecemo-nos num grupo. Sou mais velho do que ele uns 12 anos e, naquela altura, era uma diferença muito grande, até porque eu já era um profissional da rádio. Ele era um miúdo que andava a estudar no Colégio Alemão. Achei-lhe a maior das graças e fascinante. Ele já tinha o mesmo humor, imaginação, criatividade e loucura que teve na vida. Não é normal encontrar-se um garoto com 16 anos, que até estaria naquilo que se considera a idade parva do adolescente, com uma capacidade de inteligência e de humor. Fiquei boquiaberto porque nunca tinha visto nada assim. Passámos a dar-nos bem e, por isso, sempre que tinha a oportunidade convidava o Herman para jantar, ou para cear.
Ele começou na música, a tocar viola e foi para o teatro de revista. Começou a fazer umas rábulas e, a partir daí, foi o Herman que conhecemos.

Como foi trabalhar com ele?
Foi maravilhoso, porque é alguém com quem é divertido e sério trabalhar. Vamos trabalhar com ele como quem vai para uma festa, mas, no meio daquilo, o trabalho está acima de tudo.

Ainda hoje mantém o contacto com o Herman?
Claro que sim. Somos amigos. Mal era se esta amizade acabasse.

O que trouxeram de novo à sua carreira os programas A Roda da Sorte e Com a Verdade M’Enganas?
A convivência que mantive, e mantenho, com o Herman reflete-se no nosso trabalho. Não me lembro de ter combinado com ele, com antecedência, alguma coisa em relação ao trabalho. As coisas surgiam com naturalidade. Conhecemo-nos, mutuamente, por dentro e por fora. Ambos sabemos como cada um de nós reage em determinadas circunstâncias.
Quando foi a Roda da Sorte, que era um programa novo que o Carlos Cruz trouxe dos Estados Unidos, ele e o Herman chegaram à conclusão que teriam de o fazer comigo. A poucos dias de começarem as gravações, o Carlos Cruz telefonou-me a formular o convite e eu nem sabia o que era para fazer.
A Roda da Sorte em Portugal era diferente das que se faziam em vários países, onde o apresentador era a base e o voz-off servia apenas para dizer a lista dos prémios e anunciar o vencedor da edição. O diálogo, a colaboração e a brincadeira que havia entre mim e o Herman José foi algo que surgiu naturalmente e que nos diferenciou. Foi um êxito.

Sentiu que estava seguro em aparecer na TV?
Já tinha feito televisão antes disso. Apareci na televisão, pela primeira vez, numa peça de teatro realizada pelo Rui Ferrão.

Além do Herman José, quais foram os atores ou figuras da televisão com as quais gostou mais de trabalhar?
Tive a sorte e a capacidade de poder trabalhar com gente magnífica, porque trabalhei na empresa do Vasco Morgado que tinha os nomes dos melhores atores. Era uma empresa a sério. Trabalhei com toda essa gente e, por isso, não posso e não consigo salientar ninguém em especial. Criaram-se laços de amizade, uns mais profundos do que outros. Posso indicar, por exemplo, o Raúl Solnado, Nicolau Breyner, tanta gente, alguns do tempo da minha mãe que conheci desde sempre e com os quais tive a felicidade de trabalhar.

“Sempre tive uma grande ternura por Espinho porque foi lá que aprendi a nadar e fazer as coisas que na juventude todos fazíamos.”, desabafou Cândido Mota. (fotografia: Defesa de Espinho)

Houve um episódio, uma estória engraçada, num programa de televisão!
Estávamos a fazer o programa Roda da Sorte e estava no meu estúdio, a dialogar com o Herman José, sem aparecer na imagem. No entanto, aproximou-se a gravação do programa que iria para o ar no dia de Carnaval. Estava a conversar com o Herman, enquanto ele estava a maquilhar-se, e alguém disse que iríamos gravar esse programa e perguntou se tínhamos preparado alguma coisa de especial. Dissemos que não.
O Herman pediu a um colaborador para ir à mala do seu carro, buscar umas roupas que ele tinha usado num espetáculo a representar a personagem Maricarmen.
O Herman lembrou-se de trocar comigo. Vesti-me de Maricarmen e ele foi para o meu estúdio. Foi um êxito e uma coisa de malucos. Eu não sabia fazer a voz da Maricarmen. Foi ele que fez a voz, sem qualquer texto e preparação. Entendíamo-nos tão bem que eu adivinhava o que ele dizer e fazia o movimento dos lábios. Muita gente pensou que nós tínhamos decorado o texto todo! Pensavam que eu estava a fazer a dobragem daquilo que ele ia dizer e eu não sabia mesmo nada. Houve que dissesse que nós tínhamos estado a ensaiar durante várias horas!

Já alguma vez foi interpelado na rua por fãs ou pelo público que assistia aos programas na TV ou que o ouvia na rádio?
Aconteceu muitas vezes. Fiz rádio e televisão, durante muito tempo, só com a voz. Ao andar pelo país e estando num sítio onde não havia estado antes, as pessoas olhavam e não conheciam a minha imagem, mas reconheciam a minha voz. Se calhar, desiludi muita gente porque pensavam que eu era uma beleza!

Trabalhou nas estações televisivas RTP e na SIC. Houve diferenças? Como foi essa experiência?
Tanto numa como noutra, trabalhei com o Herman José. Conheço nessas estações de televisão muita gente, desde funcionários a vários profissionais. São pessoas do meu meio e com as quais me dou muito bem. Sempre fui muito bem recebido em todo o lado.

É um homem de esquerda!…
Completamente, porque é a minha maneira de ver a vida. Ambiciono um mundo mais justo para todas as pessoas. A exploração desenfreada de uma parte da população por uma parte mínima acho muito mal. Deve haver uma sociedade mais justa e que para mim é representada por uma esquerda.

Viveu o 25 de Abril em direto na rádio?
Vivi no Rádio Clube Português, no Posto de Comando das Forças Armadas. Eram cerca das três horas da manhã quando a rádio foi tomada pelas Forças Armadas. Estava em casa, com a minha mãe, em Campo de Ourique, e a minha irmã telefonou-me e disse-me que parecia que estava a haver uma revolução e que o tinha ouvido na rádio. Estava a dormir e fui ver o que se passava. Liguei para o Rádio Clube Português e estava o Joaquim Furtado a ler um comunicado. Montei-me na mota e fui para lá. Durante três dias não saí de lá.

Das suas filhas, só uma, a Maria Teresa, seguiu a área da comunicação e do jornalismo na TSF…
As minhas filhas deixam-me muito orgulhoso. Mais do que seguirem vidas que eu gosto, são boas naquilo que fazem. A minha filha mais nova, a Maria João, tem o curso de Engenharia do Ambiente e a Maria Teresa tem o curso de Comunicação e é muito boa naquilo que faz. Isto é a base da minha alegria.

A Maria Teresa inspirou-se em si?
Possivelmente, mas nunca tivemos essa conversa.

Uma das suas filhas, penso que a Maria João, disse o seguinte: “Não herdei a voz do Cândido Mota, mas herdei outras coisas como o sentido de humor, a inteligência, a preguiça”. Que comentário pode fazer?
Fico muito contente com isso. Tanto uma como outra, são pessoas com sentido de humor e com inteligência. Elas é que dizem que herdaram isso de mim.

Acha que algum dos seus três netos lhe vai seguir as pisadas?
Não faço ideia! Por enquanto, como crianças, são notáveis. Procuro não ser o avô babado a falar, mas caio nisso porque eles são divertidos e muito giros.

O meu pai e a minha mãe continuam a ser para mim o paradigma do que é ser pai e mãe. A minha irmã, que já faleceu, foi, para mim, irmã e mãe ao mesmo tempo. A minha avó materna era uma pessoa extraordinária

Cândido Mota

Nunca pensou em regressar à sua terra natal?
Não seria nada que levasse a mal, antes pelo contrário. Viver em Espinho seria sempre muito agradável, embora já não seja o meu Espinho. Houve um pensador que disse que “não deveríamos nunca voltar ao sítio onde nascemos e fomos criados, porque nunca mais vai ser a mesma coisa”. Nós não vamos ser a mesma coisa e o sítio também não. Seria uma experiência nova e um novo Espinho, uma nova terra, mas nunca o meu Espinho. Nem eu seria o miúdo que lá nasceu e viveu.

Mas Espinho é tão diferente de que modo?
Temos uma tendência para nos lembrarmos da nossa infância e dos sítios onde vivemos. Temos a tendência a dizer que as coisas já não são como eram. Temos saudades de tudo, dos sítios e dos ambientes, mas também temos saudades de nós desses tempos.
Espinho não será o mesmo porque eu também não sou o mesmo e porque já passei por outras experiências – cresci, amadureci e envelheci.

Alguma vez foi abordado por algum espinhense em alguma circunstância?
Às vezes as pessoas vinham a Lisboa e procuravam-me. Não escondo que nasci em Espinho na clínica do dr. Manuel Gomes de Almeida. Era uma ótima clínica e gente muito boa. O Lito Gomes de Almeida viveu durante algum tempo em Lisboa e esteve ligado ao desporto.

Qual o seu maior desejo ou o seu sonho?
Gostaria muito que as pessoas pensassem bem que há uma diferença fundamental entre direita, esquerda, centro-direita, centro-esquerda, conservadores, progressistas… As pessoas têm o direito de pensar pela sua cabeça. Tenho amigos em praticamente todos os sectores políticos, com quem troco ideias, discuto e muitas vezes estou em desacordo e de acordo. Na discussão nasce a luz e é a conversar que nos entendemos. Mas há pessoas e organizações com as quais deveremos ter o máximo dos cuidados e não devemos ter indulgência – o neofascismo e o neonazismo. Falo do Chega e dos seus dependentes. Algumas das maiores desgraças da humanidade aconteceram com a chegada ao poder desse tipo de pessoas.

Há algum projeto que tenha em curso?
Há uma quantidade de pessoas que andam atrás de mim a dizer para me apressar a escrever as minhas memórias ou um livro com episódios da minha vida, porque já estou com pouco tempo de vida. Estou a pensar escrever esse livro, mas dá tanto trabalho!
Como é possível estar aqui, vivendo aquilo que vivi e fazendo a vida que fiz, porque nunca me poupei de coisa nenhuma? Nunca tive nenhum cuidado de saúde e fiz tudo aquilo que quis. Em setembro cheguei aos 80 anos! Como é possível?!

Como passa os seus tempos livres?
Passo com a minha querida família e com um grupo cada vez mais restrito.

Qual a mensagem que gostaria de deixar?
Aproveitem a vida ao mais pequeno pormenor. Nunca adiem. Façam e vão fazendo. Tudo vale a pena e todas as experiências são úteis e boas. Vivam cada minuto da vida, porque o tempo passa de uma forma muito rápida.

E aos espinhenses?
Mantenham um Espinho em que seja bom viver e bom de recordar para toda a vida.

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