Na altura, o que é que o levou para o andebol?
Posso dizer que foi a influência do meu irmão. Ele é mais velho e comecei logo a ter contacto com a bola, a correr e a brincar. Ele já jogava a sério, já tinha competição, e acompanhava-o sempre com os meus pais. Fui ganhando o gosto e, com o tempo, comecei a levar aquilo cada vez mais a sério. Experimentei o futebol, mas não gostei muito. Fiquei no andebol e deu certo.
O que é que o cativou?
Posso ser sincero: acho que, como criança, gostava dos golos. Como no andebol há muitos golos, pode ter sido isso.
Como descreve os seus anos no SC Espinho, o seu primeiro clube?
Diria que foi muito importante para mim, porque é um clube excelente na formação. Posso dizer que aprendi tudo, basicamente. Só depois, quando as coisas começaram a ficar mais sérias, é que procurei outros clubes e outros conhecimentos. Mas, em termos de formação, diria que não poderia ter tido melhor, mesmo ao nível de todo o staff, dos dirigentes aos treinadores.
Foi difícil tomar a decisão de sair?
Ainda estive muito resistente. Depois de uma conversa com os meus pais, chegámos à conclusão de que, se era isto que queria mesmo para a minha vida, se calhar tinha de pôr os amigos um pouco de parte. No SC Espinho, naquela idade, se calhar já não ia conseguir evoluir tanto, já tinha aprendido muito daquilo que me podiam dar. Nos Carvalhos também existia a possibilidade de lutar por títulos, que mais tarde tive a felicidade de conquistar. Foi uma decisão tomada numa perspetiva de progressão individual.
O facto de ter ido para Gaia e continuar relativamente perto de casa tornou essa decisão mais fácil…
Diria que sim, até porque uma coisa que os meus pais sempre me impuseram foram os estudos, nunca abdicaram disso. Estudava no Colégio dos Carvalhos e, por isso, até era mais fácil conciliar. Saía da escola e ia diretamente para o treino. Em termos de logística, também era mais fácil para eles, principalmente porque, naquela idade, ainda não tinha muita noção dessas coisas.
O que representaram esses anos nos Carvalhos?
Posso dizer que foi aí que dei aquele salto de miúdo para adolescente e percebi se era mesmo isto que queria, se me via noutro desporto ou até se queria dedicar-me a 100% aos estudos. Foi lá que percebi que queria mesmo o andebol.
Também foi aí que percebi o que era competição a sério, porque estava num clube com muitos títulos e sabia que ia ser mais complicado jogar devido à competitividade entre os atletas. Os primeiros anos foram complicados, porque ainda estava a ambientar-me à casa e não me sentia em casa como no SC Espinho. Depois disso, diria que foi o que me permitiu dar o salto final para conseguir chegar onde estou hoje. Deram-me os últimos ensinamentos de que precisava para dar esse passo e, depois, sair dos Carvalhos com um convite do FC Porto.
Como surgiu o convite do FC Porto?
Ainda fiz alguns jogos pelos seniores dos Carvalhos e tive esse privilégio. A última época que fiz lá correu-me bem e depois o professor Magalhães contactou-me e disse que estava interessado em mim. Ainda coloquei a hipótese de não ir e ficar nos Carvalhos, porque tinham falado comigo sobre integrar a equipa sénior.
Mas, às vezes, o nome também pode ajudar e, claramente, o FC Porto tinha mais ferramentas para me permitir chegar mais longe. Mesmo que jogasse menos tempo, porque o nível era superior, as condições e as ferramentas que tinha no FC Porto eram melhores.
Essa chamada do FC Porto foi uma confirmação de que tinha tomado a decisão certa ao apostar no andebol?
Posso dizer que sim. Qualquer miúdo, quando sabe que um clube como o FC Porto, um dos três grandes, está interessado, pensa: “Afinal, se calhar consigo fazer alguma coisa. Posso conseguir chegar lá e fazer disto vida.” Se calhar foi aí que percebi que estava no caminho certo e que tinha de continuar com o mesmo trabalho e dedicação. Apesar de ir para o FC Porto, ainda não estava onde queria estar.
Onde é que quer estar?
Quero jogar em grandes palcos. Graças a Deus, já tive a experiência no Sporting CP de perceber o que é um grande palco, mas é mais por aí. Diria que estou no caminho certo.
Como foi esse ano num clube dessa dimensão?
Foi um pouco estranho. Tinha medo de errar, mas depois comecei a habituar-me aos colegas, que acabaram por se tornar amigos. Fomos dando apoio uns aos outros e acho que também foi graças a eles que as coisas correram bem. Se o ambiente não fosse bom, teria sido mais complicado.
Logo a seguir recebeu o convite do Sporting CP. Foi uma decisão complicada?
Sim, foi uma mudança drástica na minha vida. Mais uma vez, tive de pensar naquilo que queria e perceber se era o momento ideal para arriscar. Cheguei a ponderar rejeitar o convite, principalmente pelo facto de ter de ir para longe.
Depois, o meu pai disse-me para olhar para o patamar em que o Sporting estava. Mesmo que não viesse a jogar nesses patamares, teria a oportunidade de os ver de perto, de perceber como tudo funcionava e de saber aquilo que tinha de fazer para chegar lá. Depois do que vi, percebi que é preciso muito trabalho.
“É com minutos e experiência que vou conseguir evoluir e ganhar a maturidade necessária para chegar mais longe”
Kiko Loureiro
O que o convenceu a aceitar o Sporting CP?
Foi mesmo o patamar em que o Sporting CP estava e os resultados que vinha a ter. Já tinha tido um colega que tinha ido para lá, o Rafael Vasconcelos, e, depois de falar com ele, disse-me que estava a gostar e que as condições eram boas. Um dos treinadores que já tinha trabalhado comigo também tinha ido para lá. Apesar de estar longe de casa, ter pelo menos duas pessoas conhecidas tornou tudo mais fácil.
O apoio dos meus pais também foi fundamental durante esse período e agradeço-lhes imenso, fizeram muitas viagens e iam lá quase todos os fins de semana. Sei que é difícil conciliar tudo isso, mas foi fundamental para eu não ir abaixo.
Sentiu que podia ter ido abaixo?
Diria que sim, porque sou muito ligado à família. Já era maior de idade, mas foi um choque. Não estava habituado e também não esperava que essa mudança acontecesse tão cedo.
Sentiu que evoluiu mais lá do que no FC Porto?
Diria que cada clube me trouxe os seus benefícios. Foram momentos diferentes da minha vida e fases diferentes do meu percurso no andebol. Acho que ambos foram positivos e não diria que um foi melhor do que o outro. Foram experiências completamente diferentes, mas ambas positivas.
Como descreve esse período em Lisboa?
A primeira época foi difícil por causa da família, por estar longe e também por ter de me adaptar à cidade. Na segunda época já tinha amigos e estava mais habituado. Houve, principalmente, um colega cuja família me ajudou bastante, porque perceberam que era muito ligado à minha família e que estava a sentir algumas dificuldades. Ajudaram-me imenso e agradeço-lhes muito.
O segundo ano foi melhor do que o primeiro porque já estava habituado, já sabia para onde ia e com quem ia trabalhar.
No Sporting CP teve oportunidade de privar com jogadores como Salvador Salvador ou Francisco Costa. O que representou, sendo ainda tão jovem, partilhar o balneário com esses atletas?
Foi mais uma forma de perceber que talvez estivesse no caminho certo. Não estava à espera de chegar lá e poder partilhar o balneário com eles, porque, para mim, são ídolos. Via-os na televisão e pensava que seria muito bom conseguir chegar perto deles, partilhar ideias e aprender com eles, porque sabem muito.
Também havia muito medo de errar, porque são jogadores de um nível muito elevado e pensava que não ia conseguir chegar ao nível deles. Mas deram sempre muito apoio a mim e aos meus colegas. Foi uma experiência um pouco mista, entre o medo e o orgulho.
A sua estreia como sénior aconteceu no Sporting CP. Como foi esse primeiro jogo como sénior?
Foi magnífico, inexplicável. Conseguir trabalhar com jogadores de alto nível, que estavam a jogar a Liga dos Campeões, e ter o privilégio de dividir o campo com eles foi especial. Acima de tudo, havia algum receio de errar e muito nervosismo, mas o treinador Ricardo Costa estava sempre a dar apoio e a puxar por mim.
Acho que essas coisas fazem toda a diferença para que a experiência seja positiva. Se errasse e fosse logo “cascado”, se calhar já não guardava uma experiência tão positiva.
Depois, seguiu para Braga. O que o convenceu a escolher o ABC?
Foi um pouco pela possibilidade de jogar na 1.ª Divisão e ter minutos. É com minutos e experiência que vou conseguir evoluir e ganhar a maturidade necessária para chegar mais longe.
Fez dez golos no primeiro jogo do campeonato. Como foi esse primeiro impacto?
Não estava à espera. Diria que estas semanas têm sido positivas, o grupo é muito bom. Estava um pouco receoso, porque é uma equipa sénior e ainda sou um miúdo, mas foram sempre muito inclusivos e fizeram com que me sentisse à vontade.
Também partilhamos carro, porque há vários jogadores da zona do Porto, e são as pessoas com quem acabo por falar mais. Depois do treino fazemos a viagem juntos e vamos trocando ideias. O Hugo Costa também me deu muito apoio. Sempre que precisava de falar, era um pouco com ele que falava. Desde o início que esteve sempre a puxar-me para cima quando estava mais em baixo. Acho que é disso que se trata um grupo e isso é essencial.
Quais são os grandes objetivos que tens para a tua carreira?
Jogar a Liga dos Campeões. Sei que ainda tenho muito trabalho pela frente, mas nada é impossível. Diria que esse é o maior objetivo que tenho para a minha carreira.
Se tivesses de ir para o estrangeiro para o conseguir, não teria problema?
Diria que não. Já tive a experiência de estar longe de casa. Seria só mais um passo.































