Destaque - Defesa de Espinho

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Destaque

A embarcação, ‘Corpo Santo’, que levou os 19 portugueses, deu à costa de Baiona (França) a 17 de setembro de 1964   (Fotos Direitos Reservados)
Os portugueses à chegada a Baiona (França) junto ao navio inglês que os recolheu
“Guiávamo-nos por uma bússola e,
de vez em quando, pedíamos ajuda aos barcos espanhóis”
António Gonçalves, foi para França em1964, num ‘barquito’(Corpo Santo) com 19 pessoas, durante cinco dias, sem água e sem comida
 
António Ferreira Gonçalves, casou em 29 de agosto de 1964 e, um mês depois foi para França, numa pequena embarcação, movida a um motor de sete cavalos, que partiu de Matosinhos, passando pela Póvoa de Varzim, com 19 pessoas a bordo, até França. Uma aventura com partida a 12 de setembro de 1964 e com chegada a Baiona, França, a 17 de setembro daquele ano. Cinco dias no mar, sem água e sem comida, com os emigrantes portugueses a serem alimentados por pequenas embarcações espanholas que iam encontrando ao longo do percurso.
 
Manuel Proença
 
António Gonçalves descreve, assim, a sua aventura:
“Era carpinteiro e trabalhava na Fábrica Progresso. Nessa altura, tinha um cunhado que trabalhava em Matosinhos e um dia, um sobrinho meu, disse-me que ia para França de barco. E perguntei: de barco?
– Sim, respondeu.
– Acho que vão comprar um barco e cada um tem de pagar três contos (corresponde a 15 euros) e eles querem sair no sábado!
Então, nessa quinta-feira (10 de setembro), disse ao patrão que tinha de ir ao hospital. E fui ter com eles a Matosinhos para saber como eram as coisas, na realidade.
Quando lá cheguei, verifiquei que era mesmo como me tinham dito e respondi que iria tentar arranjar os três contos. Por acaso consegui!
No sábado fui para Matosinhos e saímos de lá à meia-noite. Tivemos de ir deitados numa bateira porque o barco que compramos estava fora da barra para que as autoridades não desconfiassem daquilo que íamos fazer. Depois fomos à Póvoa de Varzim, pois disseram que era de lá que iria chegar o comer. Mas não encontramos nada!
O nosso barco era pequeno e tinha um motor de sete cavalos e uma vela toda rôta. Era um barco que, segundo diziam, habitualmente levava apenas cinco pescadores. Nós estávamos 19 lá dentro!
Fomos andando de barco e, às vezes, quando encontrávamos barcos espanhóis, pedíamos pão para comer.
Tínhamos no barco um pipo de água e, já não sei quem foi, juntou um garrafão de vinho! Estragou a água e o vinho! Por isso, não tínhamos nada e passamos uma fome terrível.
Guiávamo-nos por uma bússola e, de vez em quando, pedíamos ajuda aos barcos espanhóis, perguntando-lhe qual a direção que deveríamos seguir até chegar a França.
Finalmente, chegamos à fronteira de Espanha com França. Disseram-nos que não deveríamos sair ali.
O meu cunhado acabou por sair em Santander, pois teve receio de continuar, pensando que o barco iria partir-se. Viu um barco espanhol e pediu para o levarem para terra. Ele ainda me perguntou se eu queria ir com ele! Eu disse-lhe que não e que se vim pela aventura que iria até ao fim. Ele saiu e esteve preso.
Seguimos, então, para Baiona e foi aí que o mar começou a crescer, com vagas muito altas. Sentimos que não poderíamos passar a barra e os que eram pescadores disseram que se lá entrássemos morreríamos todos! O barco era pequeno e o motor não tinha força, podendo despenhar-nos contra os esporões.
Foi então que avistamos um navio inglês. A solução foi tentarmos que nos desse apoio.
Havia um indivíduo, que julgo ser da Aguda, que sabia falar um pouco de inglês. Eles lançaram uma escada de corda e ele subiu e esteve a falar com os ingleses. Depois lançaram novamente a escada e mandaram-nos subir. Foi então que abandonamos o barquito pequeno que nos transportara até ali. Ainda tínhamos um bidon de 200 litros de combustível que deitamos ao mar.
De cima do navio vimos o barco pequeno que foi lentamente empurrado pela ondulação até chegar à areia, na praia da Barra.
Entretanto, o capitão do barco inglês comunicou às autoridades francesas que nós estávamos no seu navio. Por isso, quando chegamos ao porto de Baiona, a Polícia Marítima estava à nossa espera e perceberam que eramos emigrantes. Por isso, não houve problemas.
Levaram-nos para o posto e, quando verificaram que estávamos cheios de sede e de fome foram a correr, buscar comida. Alguns, com a ansiedade, quase partiam a garrafa de água! Estivemos no mar durante cinco dias sem comer e beber!
Depois, a polícia preencheu papéis e perguntou a empresas francesas se nos davam trabalho. Naquela altura não faltava trabalho!
Perguntaram-me o que sabia fazer. Respondi que era carpinteiro e, por isso, se eu quisesse, no dia seguinte já poderia ir trabalhar.
De todos, só três ficamos juntos – eu, o meu compadre (Manuel Maria) e o algarvio (Joaquim dos Santos). Os outros pediram para ir para outras localidades francesas. Nunca mais os vimos.
Hoje, por força do nosso trabalho, estamos todos muito bem e esse algarvio tem uma vida fantástica. O dinheiro não cai do céu e foi com muito trabalho que conseguimos tudo.
Recentemente, o ‘Algarvio’ esteve cá e fomos a Matosinhos a uma sardinhada, pensando que iríamos encontrar alguém”.
 
– Como conseguiu as fotografias do navio e do barco que os levou até França?
“Sou carpinteiro e trabalhava com um patrão. Um dia (passado quatro ou cinco meses) fomos fazer caixilhos para fotografias de um fotógrafo que trabalhava para um jornal, próximo da catedral de Baiona. O meu patrão começou a falar com ele e contou-lhe como cheguei a França. O fotógrafo respondeu-lhe que tinha lá as fotografias desse grupo. Foi buscá-las e deu-mas, bem como o jornal onde foi publicada a notícia. Guardei-as durante cinquenta anos!”
 
– Depois disso, quando veio a Portugal pela primeira vez?
“Quem me arranjou o trabalho em França foi o vice-cônsul de Portugal, um senhor Braga, que era do Porto. Quando o conheci, disse-lhe que era de Espinho e que trabalhava para um empreiteiro como carpinteiro. Ele perguntou-me se não me interessava sair de lá. Foi então que ele decidiu falar com o meu patrão que era seu vizinho. A mim interessava-me esse trabalho de carpintaria limpa. Mais tarde, encontramo-nos e disse-lhe que ganhava 2,75 francos por hora. Fiquei com o trabalho de carpinteiro.
Comecei, também, a fazer uns biscates para o vice-cônsul.
Um dia, ele perguntou-me se era casado. Disse-lhe que sim e que tinha um filho. Foi então que ele me disse que iria tratar de um passaporte para mim e para a minha mulher. Fez uma carta e eu entreguei-a diretamente ao diretor dos serviços, em Campanhã. Fui tratar dos papéis e, passado uma semana eu, a minha mulher e o meu filho já tínhamos passaporte. Vim cá na Páscoa de 1965 e já fomos todos para França.
O meu patrão tinha receio que eu não voltasse e, por isso, arranjou-me um apartamento pequeno. A partir daí, a minha vida foi outra”.
 
– E agora vai a França e vem?
“Muitas vezes, por questões de saúde, uma vez que a assistência, em França, é muito melhor do que em Portugal. Por exemplo, vou passar o Natal com o meu filho, que se encontra em França.
Desde 1985 que tenho uma casa em Anta, num terreno que comprei. Por isso, passo mais tempo cá do que lá. Toda a parte de carpintaria foi feita por mim em França e trouxe-a para cá”.
 
– Quando está em França sente saudades do seu País?
“Sinto imensas. Tenho 75 anos e, desde os 60 anos que sou reformado e, por isso, tenho tempo para vir cá muitas vezes”.
 
– Depois daquela sua aventura em 1964 chegou a antar mais alguma vez de barco?
“Cheguei a andar mais duas vezes, num barco que era do meu amigo ‘Algarvio’. Ele era um especialista na arte da pesca, porque ele andava no mar desde os seis anos e construiu o seu negócio”.
 
– Onde está o barco em que vocês viajaram em 1964?
“Foi vendido, na altura, por três mil e tal francos que reverteram para o Estado francês. A polícia que nos deteve em França, também na altura, levou-nos a ver o barco na areia”.
 
– Nos dias de hoje, se fosse jovem, faria uma aventura daquelas?
“O meu falecido pai trabalhou mais de 40 anos na fábrica Progresso. Quando ele não podia mais, meteram-no fora de portas! E isso revoltou-me. Foi isso que me deu força e não por aquilo que eu ganhava, pois tinha um ordenado bom”.
 
– Qual foi o seu primeiro investimento em Portugal?
“Perto da atual casa do João Carlos havia uma casa, em 1969. Um tio da minha mulher disse-me que estava à venda e eu comprei-a por 45 contos (225 euros atuais) e não tinha dinheiro. O meu irmão, José Gonçalves, tinha um talho na Praça de Espinho. Ele foi meu fiador. O processo demorou um ano e pouco e, ao fim desse tempo, já tinha dinheiro para pagar a casa. Nunca parei de trabalhar. Trabalhava para o patrão e, depois, trabalhava mais dez horas para mim. Tinha um amigo francês em Paris, milionário, que fica a cerca de 800 quilómetros de Baiona e ele pagava-me a viagem de avião para ir lá fazer uns trabalhos para ele. Uma vez estive lá 15 dias hospedado. Ele tinha mais confiança em mim do que nos próprios filhos. Com ele cheguei a ganhar 500 contos (2500 euros) por mês em biscates, há mais de vinte anos”.
 
– Como é que aprendeu a arte da carpintaria?
“Foi no Mourão, na Rua 12. Eu dizia ao meu pai que queria ser eletricista. Ele não me deixou, pois entendia que deveria ser carpinteiro. Quando era pequenito, em Espinho, havia muitos poços de água e o meu pai amarrava-me uma corda para eu descer aos poços e retirar de lá os motores. Por isso, eu queria era ser eletricista. Aprendi a fazer de tudo um pouco, de todas as artes, o que fez de mim um bom artista. O meu patrão deu-me sempre tudo e até comprou uma carrinha para eu poder fazer toda essa biscatada. Eu tinha sempre cinco semanas de férias para poder vir a Portugal e, depois compensava com trabalho.
Foi uma vida de muito trabalho. Hoje sinto-me bem, embora em tempos me tenha sentido um pouco em baixo por questões de saúde. Mas agora estou como um leão!”
 
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